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Obra sobre João Pessoa é ampliada e revista

12 de julho de 2021
Foto: Div

por Joel Cavalcanti – A União

Escrita por Fuba, ‘Parahyba 1930’ reacende a discussão sobre silenciamento da história do político que foi estopim da Revolução de 1930

Quando João Pessoa foi assassinado na Confeitaria Glória, no Recife (PE), uma série de atos de violência sucedeu os dois tiros disparados por João Dantas. Ele mesmo e seu cunhado – acusado de ser cúmplice do homicídio de Augusto Moreira Caldas –, que estavam presos na Casa de Detenção da capital pernambucana, morreram. Suicídio, conforme a versão oficial, mas sob circunstância que suscita muitas questões. Dúvidas que também cercam o suposto auto envenenamento de Anayde Beiriz, poucos dias depois da morte de seu ex-companheiro.

O Coronel José Pereira, após a intervenção federal em Princesa Isabel, refugiou-se, escondendo-se no interior de Pernambuco. O ex-governador João Suassuna, pai de Ariano Suassuna, encontrava-se no Rio de Janeiro, onde ocupava mandato de deputado federal e também acabou sendo assassinado. Na capital e no interior, opositores de João Pessoa eram perseguidos como forma de vingança, enquanto estabelecimentos comerciais que os apoiavam eram destruídos. Os dois tiros que levaram ao fim da República Velha criaram o mito de João Pessoa, em um clima de comoção, medo e silenciamentos.

Quase 40 anos após esses eventos, a curiosidade do estudante do quarto ano primário, Flávio Eduardo Maroja Ribeiro, o futuro músico e político Fuba, se deparou com a barreira desse silêncio. Foi quando o estudante de 11 anos do colégio Pio XII foi escolhido com outros quatro colegas para entrevistar o escritor de A Bagaceira, José Américo de Almeida – que havia sido o chefe de polícia no governo de João Pessoa. Outras pessoas presentes na ocasião queriam saber mais sobre os fatos do passado. “Depois dessa entrevista, começaram a cutucar ele: ‘Rapaz, fala um pouquinho da Revolução de 30’”, lembra Fuba, ao que o escritor teria inicialmente recusado. “Não vou falar sobre isso. É uma história muito pesada. Envolve muito sangue”.

Nesse momento, as outras quatro crianças já tinham saído do local do encontro para brincarem e só Fuba permaneceu para ouvir aquela história. José Américo de Almeida começou a responder questionamentos sobre o embalsamento do corpo de João Pessoa e a peregrinação que foi feita com os restos mortais do político por todo o país. “Mas ele sentiu que estava falando demais e interrompeu, mas aquilo ficou no meu inconsciente. Chegando em casa, eu perguntei ao meu pai e ao meu avô e eles: ‘Como você soube disso?’ E ficaram até irritados, porque era um assunto que ninguém falava. E isso aguçou a minha curiosidade, mas não tinha em livro nenhum”. O livro decidiu Fuba mesmo escrever.

Já está em processo de financiamento coletivo a segunda edição de Parahyba 1930 - A Verdade Omitida. A obra de 500 páginas deve ser lançada oficialmente no dia 5 de agosto e traz na sua ampliação a inclusão do depoimento documentado de João Dantas após sua prisão, uma explicação mais detalhada sobre o contexto que levou Epitácio Pessoa a presidência do país em 1919, além de comentários sobre a relação entre a música ‘Paraíba’, de Luiz Gonzaga, e a Revolta de Princesa. O livro, originalmente publicado em 2008, faz um levantamento sobre os vários nomes que a capital paraibana possuiu na história, causou um grande fato social levando a criação de grupos de discussão sobre a volta do nome da capital para Parahyba, assim como a recuperação da bandeira do Estado.

“Eu não fiz o livro na intenção de criar esse movimento. Mas o livro fez com que o incentivasse. Muita gente me criticou na época, dizendo que eu queria mudar o nome da cidade. Ora, isso não é prerrogativa de vereador. Houve aquele impacto inicial, me chamavam de louco. Mas muitas dessas pessoas chegaram a pedir desculpas a mim”, desabafa Fuba.

Parte desse movimento se fortaleceu ante ao caráter do político João Pessoa, que foi posto em dúvida na obra. “Os irmãos o chamavam de louco. João Pessoa tentou assassinar o pai dele duas vezes. Foi preso. Mas não sou quem diz isso: eu publico a carta de João Pessoa de Queiroz, seu primo que morou com João Pessoa durante muito tempo, e ele dá detalhes sobre o caráter do primo dele”, contextualiza. “A intenção não é difamar a imagem dele. Foi colocar a verdade dita pelos próprios familiares. Essa carta é muito transparente. A gente sabia que ele era uma pessoa difícil de conviver. Ele pegou sífilis no Pará e isso afetou um pouco o juízo”.

Em um momento em que organizações sociais se mobilizam ao redor do mundo para derrubar estátuas de líderes violentos e escravocratas, Fuba acredita que se a população tivesse mais conhecimento sobre quem foi João Pessoa, ela se envergonharia da estátua erguida na praça dos três poderes. “Eu não tenho dúvidas”, assevera. “A verdade pode demorar o tempo que for, mas ela acaba aparecendo. Só que ela apareceu muito tarde. Daqui a pouco vai fazer o centenário da morte de João Pessoa, e a imagem dele permanece nos livros de história como herói e santo”.

Sem um caráter acadêmico e não sendo historiador, o autor fala sobre sua pesquisa de forma apaixonada e lança mão de adjetivações, apresentando seu livro como sendo uma leitura fundamental para conhecer a verdadeira História da Paraíba. “Vários historiadores, mesmo sabendo da história – não de forma tão detalhada, mas sabiam que existia algo de estranho – preferiam publicar o que os vitoriosos da revolução colocavam. E isso me causou um inquietamento”, pontua Fuba.

Não sendo analisada de forma isolada, Parahyba 1930 - A Verdade Omitida torna-se um elemento significativo no debate público e reflete como a memória e a historiografia podem ser construídas como um espaço de disputas para a História.