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Sem preservação, acervo do artista Naná Vasconcelos sofre descaso

22 de janeiro de 2022
Foto: Div

*Matéria publicada no portal Brasil de Fato e transcrita logo abaixo

Para artistas e familiares, o acervo deveria permanecer em Recife, mas não há negociação com o Estado para garantir isso

Lucila Bezerra

Brasil de Fato | Recife (PE) |

 18 de Janeiro de 2022 às 12:09

Juvenal de Holanda Vasconcelos, conhecido mundialmente como Naná Vasconcelos faleceu no Recife em março de 2016. Desde então, sua casa, onde se encontra boa parte do seu acervo, instrumentos, figurinos e objetos pessoais vinha sendo mantida pela família. Depois de quase seis anos, como não houve interesse do poder público para que a memória de Naná fosse preservada, a família decidiu fechar a casa e guardar todos os pertences do percussionista em um depósito.

Naná Vasconcelos foi premiado oito vezes pelo Grammy e pela revista especializada Down Neat como melhor percussionista do mundo. Mas era na abertura oficial do carnaval do Recife, no Marco Zero, que Naná Vasconcelos era coroado à frente de dezenas de maracatus. Era sua maior celebração na cidade onde nasceu em 1944, morou durante toda a vida e faleceu em 2016. Mas ainda não se sabe se é na capital pernambucana onde o seu acervo permanecerá. 

Foi na última semana, após quase 6 anos da sua morte, que a casa onde Naná viveu começou a ser desmontada e o acervo deslocado para outro local. A viúva do percussionista e produtora Patrícia Vasconcelos é quem cuida desse material. Ela lamenta a falta de interesse pela preservação da memória do músico.

“Eu sinto com muita tristeza de ter que dizer que nunca fui procurada por instituições privadas, públicas, governamentais, não-governamentais, para a gente conversar sobre a manutenção da obra e do acervo de Naná. Então, eu tive que tirar coisas preciosas desse acervo, porque eu vou ter que disponibilizar a casa para alugar, porque eu já cansei de esperar tanto”, diz Patrícia.

Essa notícia pegou de surpresa diversos artistas brasileiros que têm Naná Vasconcelos como referência até hoje, como é o caso do músico e ativista Zé Brown, um dos pioneiros na mistura de rap, repente, côco e embolada. “Pra mim, é um grande ícone, um grande mestre e uma lenda nessa dedicação que ele sempre teve com a música percussiva, não teve medo de juntar com jazz, com soul, o samba, o maracatu, o soul, o frevo. A ousadia que ele teve de transformar isso tudo em um grande material”, relembra o cantor.

Além do legado material do artista em livros, discos e instrumentos, existe o legado de grupos e da musicalidade que ele deixou. Um exemplo disso é o grupo Voz Nagô, criado por Naná Vasconcelos e composto por sete mulheres negras e candomblecistas.

“O acervo dele tem que ficar no Brasil, em Recife, Pernambuco, foi aqui que ele nasceu, era aqui que ele se realizava. Ele poderia ir para o mundo inteiro, mas quando ele chegava em Recife, ele morava aqui, nunca saiu daqui, ele morava no Rosarinho [bairro da zona norte do Recife]”, lembra Ana Paula Guedes, integrante do Voz Nagô.

Enquanto no Brasil ainda não existe plano para a preservação do seu acervo, o percussionista é celebrado no mundo. Três dos seus instrumentos estão expostos no Museu de Instrumentos Musicais, no Arizona, nos Estados Unidos. Naná também virou tema do livro “Saudades”, lançado pelo inglês Daniel Sharp. 

“Eu não queria que isso ficasse só pelo mundo, a obra de Naná, e o Brasil ficasse só com essa coisa de ‘ele foi o melhor percussionista do mundo’ e não alimentar essa obra. Ele se dedicou à cultura brasileira, ele levou a cultura brasileira para o mundo. Então, eu não acho justo que a cultura brasileira não se interesse, o Brasil não se interesse pelo Brasil. Naná foi um Brasil que o Brasil não conheceu” lamenta Patrícia, que tem cuidado da memória do artista.

Em nota, a Secretaria Estadual de Cultura (Secult-PE) e a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) informaram que não há qualquer tratativa para aquisição das peças do acervo de Naná Vasconcelos, que permanece guardado pela família.

Edição: Vanessa Gonzaga