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Música 22 de setembro de 2021
Gonzaguinha, o eterno guerreiro amigo
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Gil Sabino

No final dos anos 70 eu representava na Paraíba, a gravadora EMI Odeon, e conheci Gonzaguinha, que era contratado da companhia e veio a João Pessoa para fazer shows no Teatro Santa Roza e Ginásio do Astréa. Lembro muito bem daquele momento, no aeroporto Castro Pinto, quando ele desembarcou junto com a banda e, os jornalistas amigos, Walter Galvão e Carlos Aranha, nos patentearam essa apresentação. Aranha, diga-se de passagem, era na época o promotor do show na cidade. Aliás, Aranha por muito tempo foi a pessoa responsável por trazer grandes nomes da MPB para os palcos da Capital e Campina Grande. Assim, produzidos por ele, apenas para citar alguns, a Paraíba conheceu Gilberto Gil, Caetano Veloso, Simone, Gal Costa, Alceu Valença, Ivan Lins, e muito outros.

Todas as vezes que encontrava com Gonzaguinha, seja em Recife ou no Rio de Janeiro, a primeira coisa que ele me perguntava era por Aranha e Nandhí (o artista plástico Uhandeijara Lisboa, que o hospedara em sua casa no bairro de Jaguaribe, nas primeiras vezes que o artista pisou em solo paraibano, em caravana com Raimundo Fagner, Ivan Lins, Paulinho da Viola e outros).

Sempre divulgando seus lançamentos em discos, através da gravadora – o primeiro foi “Gonzaguinha da Vida” que trazia a faixa “Explode Coração”, encontrávamo-nos para trabalho de rádio, televisão, shows, e bate papos que duravam horas e horas em algum bar pelas cidades. Daí  fui convidado a participar da produção da turnê ‘A Vida do Viajante’, com seu pai, o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, e a nossa amizade foi só crescendo e sempre com muito respeito e admiração um pelo outro. Gonzaguinha dizia que “gostava muito da minha pureza, do meu jeito, do meu gesto de menino corrido do lugar onde nasceu…”.

Conversávamos sobre tudo, e Gonzaguinha tinha em mim uma confiança tanta ao ponto de certa vez, me entregar as originais das letras de músicas que estaria gravando no próximo disco, incluindo “Sangrando”,  “Pontos de Interrogação”, e outras. Dizia que confiava na minha visão crítica e pedia para avaliar, dar a opinião sobre as músicas… Quem era eu, pra avaliar o trabalho de Gonzaguinha?! Mas ele fazia isso…

O ponto mais marcante de nossa amizade vem através de uma carta relíquia, que guardo até hoje, e que ele enviou para o endereço da minha mãe, em João Pessoa. Ao nos encontrarmos numa das turnês de shows, perguntou se eu havia recebido essa tal carta e eu respondi que não. Ele disse, procure lá, você vai ter uma surpresa. E, logo, eu pedi que revelasse essa surpresa, ao que ele negou. E passamos um final de semana inteiro brigando, de boa, pra ele me dizer que surpresa era essa, e nada… Dias depois mamãe me entregou a carta. Li fiquei impactado de emoção. Mais outros dias, entro num taxi em Boa Viagem, Recife, quando o motorista pede pra ligar o rádio. O locutor anuncia: Agora na rádio Cidade, a nova de Gonzaguinha na voz de Raimundo Fagner – e começa a tocar. De repente, eu começo a reconhecer a letra da música, que era senão a mesma da carta que ele havia nos enviado. “Guerreiro Menino – Um homem também chora”. Poxa! Arrepiei, comecei a chorar ali mesmo dentro do taxi…

A obra de Gonzaguinha é recheada de verdades, tanto duras e irônicas, como doces de ouvir. Vem do tempo da ditadura, quando teve mais de 50 títulos censurados. O lado romântico lhe garantiu maior espaço na mídia, interpretado na voz das melhores cantoras e cantores da MPB.  Agnaldo Timóteo, Ângela Maria, Gal Costa, Simone, Maria Betânia, Joanna, Alcione, Fagner, Emílio Santiago, e outros. Entre seus maiores sucessos estão, Comportamento Geral, Explode Coração, Sangrando, É, Lindo Lago do Amor, Começaria Tudo Outra Vez, e O Que É o Que É? – esta última, um samba imortalizado falando da beleza da vida.

Hoje, 22 de setembro, Gonzaguinha, do signo de virgem – como eu, completaria 76 anos. Lá se vão 30 anos, desde a sua morte causada por acidente automobilístico quando voltava de um show no Paraná. Mesmo assim, suas músicas continuam tocando no rádio, nos temas de novelas e seriados, imortalizadas com o passar do tempo…  Gonzaguinha, esse eterno guerreiro amigo. Valeu!

Elza Soares – Comportamento Geral (Gonzaguinha)

Gonzaguinha – Comportamento Geral