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Juca Pontes 3 de janeiro de 2017
RENATA NUA NO PÔR DO SOL E OUTROS BRILHOS LITERÁRIOS
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Despida de todos os tons e pendores e de outros sons e pudores, Renata Arruda, a todo tempo do sol, a todo movimento do vento, a todo instante do azul, nos deixa seduzir pela aguda magia de sua singular poesia. A maravilhosa musa da nossa canção contemporânea paraibana guardou do seu maior horizonte musical a melhor hora a nos revelar esse seu maiúsculo fio literário.

A estreia lírica de “Nua” recebeu projeto gráfico primoroso e acabamento bem cuidadoso, que incluem gravação de 12 poemas em DVD, com participação especial de Cissa Guimarães e Du moscovis, direção de Lúcia Veríssimo e direção musical da própria autora. “Sem amor tudo perde a graça/ a hora, o dia não passa/ a terra não é mais redonda/ sem amor eu acho que tô morrendo/ e mesmo que eu esteja vivendo/ o dia se confunde com a noite/ e tudo parece igual” (“Nua”, Renata Arruda, 74 páginas, Canela produções artísticas).

E seguiu assim o nosso sarau por tão intenso e plural diapasão. Do poema por ela declamado ao vídeo por todos aclamado, o todo se revestiu de necessário encanto e afetiva cumplicidade. Da semelhante simplicidade que vestiu os rios de outra poesia sua, diante do suave, sincero e, ao mesmo tempo, gravíssimo brado regido por Suzy Lopes. Foi mesmo um show.

A plateia enlouquecida findou agradecida pela palha angelical da voz rouca e metálica de Renata, bem ao lado das refinadas cordas do incontido violão e da permanente companhia de Sylvana, sua meiga guardiã. Tudo por consagrar o crepúsculo com o belo hino do Mestre Fuba, solfejado aos quatro cantos da casa de Coriolano Medeiros. “Somos a porta do sol/ deste país tropical/ somos a mata verde, a esperança/ somos o sol do extremo oriental/ a luz fez um poema/ nas palhas do coqueiral” …

A noite se completou e nos contemplou com a formidável verve de Ramalho Leite, que, ao saudar um outro imortal, Eilzo Matos, nos ofertou a singularidade do seu costumeiro bom humor: “Foi difícil trazê-lo do sertão para cumprir esse compromisso com a terra onde o sol nasce primeiro. Mas ele está aqui. O sol é que já foi embora”… O homenageado e convidado especial do Sol das Letras não se fez de rogado e se defendeu da peleja com a alegria de suas ternas e eternas lembranças: “O tempo me fez assim, a vida vai me levando igual como sou. A família que construí, foi com o jeito dos meus dias possíveis. Livros escrevi, filhos criei, árvores plantei. Quando quis, amigos sempre fiz”.

Mais uma vez conduzida pelas lúcidas mãos e pelos gestos férteis do nosso orador-mor Dom Hélder Moura, com mediação permanente do bom anfitrião Damião Ramos Cavalcanti, a XXXVIII edição do Pôr do sol literário reviveu a exposição da escritora Shirley Cavalcante sobre o importante projeto Divulga Escritor, que ela desenvolve pelos caminhos literários da Paraíba e por outros lugares do mundo, em companhia de inúmeros autores de língua portuguesa, e, agora, serve de motivo à parceria com os ventos da nossa confraria.

Por fim, o artista visual Guto Holanda, há alguns anos radicado na Paraíba, ofereceu mais luz à sessão lítero-musical gastronômica, com sugestiva intervenção referendada pela expressão do seu talento e desenhada pela rica claridade de suas cores. Bravo. Por todo brilho, canção e poesia.

Juca Pontes

 

*O Autor é colaborador, Coordenador do projeto Sol das Letras, e refere no texto a sessão do Pôr do Sol Literário, evento realizado na APL – Associação Paraibana de Letras, no dia 09.03.2017. Com fotografia de Guy Joseph e banner div.